Foto: Arquivo Recifest
Estamos vivendo tempos nebulosos,
onde sofremos diversos tipos de retrocessos na construção ideológica, econômica
e política de nosso País. O governo federal parece estar empenhado em destituir
todas as leis que nos protegem, todas as iniciativas que nos apóiam, todas as
janelas de projeção que possuímos e a cultura aparenta ser um de seus
principais alvos. Censurando filmes em mostras, acabando com editais de
incentivo a cultura, criminalizando e perseguindo ativistas. Até então, nossa
geração nunca havia se deparado com esses retrocessos. Lgbtqi+, mulheres, povos
originários, negres, comunidades e povos tidos como minorias sociais, nesse
contexto são as que mais sentem. No entanto, resistimos criando novos
horizontes e narrativas que contradizem a lógica imposta a nós.
Talvez eles tenham tanta
consciência quanto nós de que os meios de cultura e educação são nossa
principal arma de contra-ataque a esses retrocessos. Talvez eles saibam tão bem
quanto a gente, que a revolução será negra, feminista, indígena, sapatão,
bicha, trans e travesti. Que quando temos consciência de nossas subjetividades,
das questões que nos atravessam, possuímos também o poder de questionar o que
nos acontece, porque acontece, e almejar aonde e qual lugar desejamos ocupar. E
isso é uma arma bastante poderosa, pois almejamos ocupar todos os lugares.
O audiovisual se mostra como uma
importante ferramenta nessa luta, pois através dele conseguimos contar nossas
próprias narrativas. Espaços como o Recifest são de extrema importância, pois resistem
a esse momento de cortes de investimentos e de perseguição, e são uma janela de
projeção para compartilhar nossas vivências, questões e criar redes de
fortalecimento.
A
ABD/APECI - Associação Brasileira de Documentaristas e Curta Metragistas / Associação
Pernambucana de Cineastas e o júri aqui formado por Lilit
Bandeira, Laíse
Queiroz e Thiago das Mercês tem
como papel dentro do Festival apontar o filme que se destaca a partir da
representatividade social e política e reconhecer a criatividade da obra.
Pela capacidade narrativa
concisa, direta e sensível, pela potência que é alcançada quando conseguimos
expor nossas maiores questões buscando fortalecer os nossos, pela força da
produção feita de forma independente em meio a tanto retrocesso político,
decidimos oferecer uma menção honrosa para o filme pernambucano Cinema Contemporâneo, de Felipe André
Silva.
Trazendo sensibilidade ao
retratar a figura feminina lésbica preta de maneira tão forte e combativa,
diante de contextos tão agressivos e repressores, e que atingem principalmente
a comunidade negra no Brasil. E trazendo inovações técnicas e estéticas que
ajudam no aprofundamento da narrativa e a entender o subconsciente das
personagens, sem apresentar de maneira obvia as questões que atravessam suas
existências. Conseguindo não só manter a atenção do público até o fim, como
criando empatia pelas personagens e surpreendendo a todos no final, oferecemos
uma menção honrosa para o filme paulista A
Felicidade Delas, de Carol Rodrigues.
Pela resistência de bixas pretas
e travestis num contexto tão duro e conservador, um filme que através do
fascínio nos apresenta uma luta que atravessa a identidade de gênero e o
próprio lugar do gênero numa data cívica de grande simbolismo para o país. Por
ser fundamental na luta pela identidade cultural da população nordestina LGBTQI+,
oferecemos uma menção honrosa a todos os viados e travestis de fanfarra, pelo
lindo filme baiano balizando em 2 de
julho de Fabíola Aquino e Marcio Lima.
Considerando a importância de
fomentar o debate interseccional, trazendo a classe e a raça como pontos
fundamentais para se entender as individualidades e a complexidade das questões
identitárias, por trazer todas essas questões navegando pelo campo do sensível,
da empatia e do afeto, pela potência política e pelo fortalecimento de mulheres
lésbicas negras e periféricas. Uma outra história pode ser contada para todas e
todes nós, corpos dissidentes, pois é nossa a potência de através do afeto,
resistir. O Prêmio de melhor filme pela ABD/APECI vai para Minha história é outra, de Mariana Campos.
Seguiremos firmes e fortes entendendo a cultura
como parte fundamental da formação identitária, não por acaso atacada
diretamente pelo governo. Seguiremos produzindo, fortalecendo e valorizando as
produções lgbtqia+, pretas, indígenas, periféricas, sertanejas, etc, e lutando
pela construção da nossa própria narrativa. De um país mais justo e prospero
para todes.
Recife, 22 de novembro de 2019.